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Livro revela mais de 300 espécies da flora do Quadrilátero Ferrífero por Gustavo Werneck Um dos mais belos e frágeis patrimônios naturais de Minas, que nasce e vive entre as montanhas, vai ganhar um guia ilustrado e feito com sensibilidade, tempo e instinto de preservação. Depois de mais de uma década de trabalho, o industrial Nilson dos Santos Batista, de 65 anos, vai lançar o livro A flora dos campos rupestres do Quadrilátero Ferrífero, resultado de suas incursões pela Região Central de Minas para conhecer e documentar espécies delicadas e, na maioria das vezes, minúsculas. Natural de Caraí, entre os vales do Jequitinhonha e do Mucuri, e residente em Belo Horizonte, Nilson quer desvendar esse tesouro existente na área de mineração e ameaçado de extinção devido à exploração econômica. "Cerca de 80% dessas flores podem desaparecer do mapa. Precisamos estar conscientes do nosso dever de conservá-las", diz o fotógrafo amador, que catalogou, no volume a ser lançado em dezembro, 300 espécies, as quais vêm acompanhadas de nomes científico e popular, dados técnicos e curiosidades. Incrustado na Serra do Espinhaço, cordilheira que se estende por mais de 1 mil quilômetros entre Minas e Bahia, o Quadrilátero Ferrífero é limitado, ao norte, pela Serra do Curral; a oeste, pela Serra da Moeda; ao sul, pela Serra de Ouro Branco; e a leste pelo maciço do Caraça e município de Mariana. É nesse território de aproximadamente 7 mil quilômetros quadrados, formado basicamente de rochas, daí o nome campos rupestres ferruginosos, que Nilson manteve o foco e registrou bromélias, orquídeas, cáctus e velosas, plantas que têm muitos pelos. Nas páginas, estão o camarão-do-campo, o tom vermelho da ruélia ou ipeacaconha, a arquitetura singela do lírio-de-lima, a vistosa candeia, a mimosa, cujo nome já diz tudo, e outras de grande impacto visual. O amor do industrial pelo reino vegetal começou na época da ditadura militar, quando, então esquerdista de carteirinha e atuante nas escolas radiofônicas que ensinavam o método de alfabetização de Paulo Freire (1921-1997), decidiu viajar a BH. O objetivo era participar de um encontro do movimento Ação Popular na Serra da Piedade, em Caeté, na região metropolitana. "Cheguei, de ônibus, ao amanhecer e subi a serra a pé. No caminho, fiquei encantado com a vegetação, principalmente as flores", conta Nilson, que, na década de 1970, se estabeleceu na capital, formou-se em administração de empresas e se tornou pioneiro na construção de gabiões, aquelas estruturas usadas para contenção de taludes e drenagem. Quase 30 anos se passaram até que, em 1999, Nilson se organizou e começou a fotografar as flores que viu na juventude em Caeté e também em Sabará, Belo Horizonte, Nova Lima, Raposos, Rio Acima, Barão de Cocais e distrito de Cocais, Catas Altas, Ouro Preto, Brumadinho e Congonhas. "Este bioma é único no país, sendo o mais frágil e o mais agredido pelas mineradoras. São espécies muito pequenas, que florescem sobre a canga do minério e tornam ainda mais bonitos monumentos como a Serra da Piedade, Caraça, Pico do Itacolomi, a Casa de Pedra, em Congonhas, o Parque Estadual do Rola Moça e outros pontos", diz Nilson com entusiasmo e orgulho. Ele destaca que muitas das flores têm entre 2cm e 4cm e, por isso, foi obrigado a ampliá-las de 10 a 20 vezes para a publicação. "No início, usava uma máquina Nikon antiga e cheguei a fazer 5 mil negativos. Com a chegada das digitais, resolvi fotografar tudo de novo", revela. Para as pesquisas, Nilson contou com o apoio do professor de biologia da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Salino e dos alunos de Salino Leandro e Ana Jardim Arruda. Prazer estético O prefácio do livro é assinado pelo secretário estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, José Carlos Carvalho. Ele escreveu que "folhear o guia ilustrado é renovar prazer estético a cada página e ter a oportunidade sem igual de, apreciando o belo, conhecer flores maravilhosas que pontuam os nossos campos. Para grande parte delas, nem existem ainda nomes populares". Segundo Carvalho, ex-ministro do Meio Ambiente, o material fotográfico de Nilson é primoroso e contém um registro científico valioso, com informações detalhadas sobre cada espécie encontrada: "Nas páginas iniciais, encontramos entre as várias espécies da família Acanthaceae a epecaconha, que, nas regiões longínquas de Minas, o povo simples chama de papaconha' e faz com suas folhas e caule um remédio para tosse e coqueluche". E mais: "O que impressiona é a variedade, a riqueza da flora e das flores que compõem impressionante mosaico de cores de uma região que muitos acreditam ser pobre', só porque carece da cobertura vegetal representada por árvores de grande porte e copa frondosa. O livro, para todos, evidencia o equívoco desta suposição. Estamos seguros de que os centros de estudos botânicos do estado e do país guardarão este trabalho com especial cuidado, face à sua importância documental". Fonte: Estado de Minas, 28 de novembro de 2010 Imagem: Nilson dos Santos Batista (recorte da imagem que ilustra a matéria) Mais Notícias
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