Projeto triplica população em Glaura
Loteamento da construtora EPO deve atrair 3.773 moradores para distrito de Ouro Preto que tem 2 mil habitantes

por Cássia Eponine - enviada especial

GLAURA - Bucólico distrito de Ouro Preto, a pequena Glaura, a 26 quilômetros da se de municipal, é alvo de uma polêmica que envolve os moradores locais e um grande loteamento imobiliários, hoje em fase de licenciamento ambiental. Com cerca de mil lotes e uma população projetada em 3.773 moradores, o empreendimento, provisoriamente batizado de Moradas Casa de Pedra, é maior do que o próprio distrito, criado no século XVIII, e que hoje tem pouco mais de 2 mil habitantes.

"Querem fazer uma mini-cidade maior do que o nosso povoado", resume o fazendeiro José Gregório da Costa, 71 anos, que teme o fim do estilo de vida que caracteriza o distrito e é atestado em placa na parede da primeira casa avistada pelo visitante quando chega ao local: "Glaura é paz".

O comércio do distrito se resume a uma mercearia, um supermercado e três bares. Duas pousadas, afastadas alguns quilômetros do centro do distrito, recebem os turistas em busca de sossego nos fins de semana e feriados prolongados. Movimento mesmo, só no final da manhá e no cair da tarde, quando as crian;as atravessam a praça da matriz na volta da escola. O sentimento de tranquilidade e segurança é tão presente que é comum que os moradores deixem as casas abertas quando saem. "Estamos acostumados com uma liberdade que vai ser difícil de manter", avalia o fazendeiro.

Hoje, os moradores de Glaura trabalham principalmente nas fazendas e chácaras do distrito, além de empresas de Itabirito e Ouro Preto. Um dos temores mais fortes no distrito, diante da possibilidade de implantação do novo loteamento, é a chegada de trabalhadores de fora para atender à demanda dos novos moradores, principalmente na fase de construção.

"Aqui não tem mão de obra suficiente ou qualificada. Com gente vindo de fora, podemos ter uma ocupação desornedada, crianda uma superpopulação. Não temos infraestrutura para isso. No fim de semana, quando vem muita gente de Belo Horizonte, já temos problema de falta de água", relata o comerciante Jairo Antônio Silva, dono da mercearia Atenas. Teoricamente um potencial interessado no aumento do volume de moradores do distrito e, por tabelo, no aquecimento do comércio, Jairo não acredita em benefícios para a população. "Acho que vai entrar mais dinheiro no distrito, mas teremos problemas de estrutura", opina.

Além dos próprios glaurenses, o empreendimento também encontra resistência entre os belo-horizontinos que mantêm casas ou chácaras no distrito em busca de sossego e paz, principalmente, nos fins de semana. É o caso do escritor Rawlinson Mourão, 63 anos, que se divide entre BH e Glaura. "A atração do lugar é exatamente a tranquilidade, é não ser como Belo Horizonte é. Com o adensamento, vão acabar com o principal valor daqui", pondera o escritor.

Para a administradora de empresas Adma Beling Silva, 51 anos, que também se divide entre a capital e o distrito, condicionantes ambientais ou de preservação ao patrimônio histórico não serão suficientes para resguardar o povoado. "Acho que vão criar dois mundos em um mesmo espaço, e a população local vai ficar sufocada. Vão preservar o patrimônio e meio ambiente. Mas como vão ficar as pessoas?", questiona.

Por enquanto, o sentimento geral é de preocupação. "Estamos assustados. É um empreendimento muito grande para um lugar pequeno demais", define a ex-presidente da Associação Comunitária do Distrito de Glaura, Ailza da Silva.

Município aprova projeto

Localizado dentro da zona de amortecimento da Floresta Estadual de Uaimii, com ocorrência de mata atlântica, um dos biomais mais protegidos pela legislação ambiental, o projeto Moradas Casa de Pedra já recebeu um primeiro sinal verde do Conselho de Desenvolvimento Ambiental de Ouro Preto (Codema), que não identificou impedimentos, de acordo com as políticas municipais, à implantação do empreendimento. Ainda assim, diante do porte do projeto, foi criado um grupo técnico para acompanhar e fazer as recomendações necessárias durante o processo de licenciamento.

Agora, o projeto aguarda análise técnica do pedido de licença prévia na Superintendência Regional de Meio Ambiente (Supram) para ser encaminhado ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), que decidirá sobre a viabilidade ou não do empreendimento e possíveis condicionantes à sua implantação.

No formulário de caracterização do empreendimento, a EPO Engenharia, responsável pelo projeto, fala em mil lotes com uma área média de mil metros quadrados, distribuídos em 5,3 milhões de metros quadrados, ou 539 hectares, o equivalente a 539 campos de futebol. A densidade populacional declarada pelo empreendedor foi de 7,42 habitantes por hectare, que somariam 3.773 novos moradores ao distrito.

Prefeitura espera geração de emprego e renda

Para o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, o projeto pode beneficiar Glaura com a geração de empregos e renda, desde que se observem os requisitos legais de preservação do patrimônio e meio ambiente. "A posição da prefeitura é compatibilizar patrimônio cultural e natural com desenvolvimento urbano. Mas entendemos que as pessoas que moram ou que têm sítios na região se preocupem com o fato de que Glaura possa crescer muito e deixar de ser o pequeno arraial que eles gostariam que sempre fosse", afirma o prefeito, lembrando que a Igreja Matriz de Santo Antônio é tombada pelo Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Na avaliação do secretário municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto, Gabriel Gobbi, que também preside o Conselho Municipal de Política Urbana da cidade, o projeto está de acordo com a vocação do distrito. "A região, em função da qualidade do clima, da topografia e do verde, tem uma grande vocação para habitação e turimo. Não há como evitar que Glaura cresça. O importante é crescer com planejamento", pondera.

Fonte: Hoje em Dia, 29 de outubro de 2010
Imagem: William Ricardo de Carvalho
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