Aqui, dá pedal!
Viagem de bicicleta mostra a descoberta de lugares poucos explorados turisticamente. A prática ainda engatinha no Brasil. Encontro debaterá o cicloturismo na Estrada Real

Vento no rosto, sentimento de liberdade e a aproximação: da natureza, da história dos locais visitados e, principalmente, das pessoas. Assim pode-se resumir a prática do cicloturismo. Ao contrário dos viajantes que passam de carro e dão a impressão de nada precisar e querer dos povoados por quais trilham, as bicicletas dos cicloturistas são intimistas, "simpáticas" e convidam para uma boa prosa. O segmento, ainda em desenvolvimento no Brasil, tem poucos circuitos adaptados exclusivamente para a prática.

Dois desses trechos foram elaborados pelo Clube de Cicloturismo do Brasil juntamente com os municípios envolvidos: o Vale Europeu, ao Sul do país, trecho de 350 quilômetros de terra e o Costa-Verde & Mar, no litoral da mesma região e com 270 quilômetros no total. Também é comum, entre os cicloturistas, escolher a Estrada Real (ER), com seus 1,6 mil quilômetros, como percurso para a aventura. Conscientes desta realidade, o Instituto Estrada Real promoverá no próximo sábado um debate sobre cicloturismo e caminhada no Ciclo de Encontros Temáticos. O evento contará com especialistas no tema e empresários do setor para discutir as possibilidades de negócios na ER.

"Por que você está viajando de bicicleta? O que você está fazendo aqui?", são algumas das perguntas que o geógrafo e ciclista, Alessandro Borsagli, já ouviu nas andanças que fez sob duas rodas. Ele, que tem preferência pelo caminho entre Ouro Preto e Diamantina, na Estrada Real, revela que o mercado em Minas Gerais está começando a crescer somente agora. "São Paulo e o Sul do Brasil ainda são mais desenvolvidos na área. É preciso interesse da Secretaria de Turismo local e dos agentes. Dá para contar no dedo os profissionais preparados para atender esta demanda. E ecoturismo está na moda! As pessoas estão buscando este contato com a natureza", ressalta Borsagli. Como dica para as pousadas que querem agradar esta nova clientela, ele avisa: "É bom pensar em uma acomodação segura para a bicicleta e recomenda-se servir jantar, pois chegamos com muita fome."

Entre as dicas, Walter Magalhães, também adepto e um dos diretos do Clube do Cicloturismo, acrescenta um desconto no valor cobrado nas hospedagens, uma boa cama, boa ducha e café reforçado. "O ciclista tem que recuperar a sua energia, pois é seu combustível. Ele que se leva aos lugares", explica Walter. A aproximação com a natureza e as pessoas, a prática saudável e a sensação de fazer algo ecologicamente correto são alguns dos benefícios do esporte enumerados por ele.

Mas Walter revela: "engana-se quem acha que o cicloturista é só um aventureiro". Segundo ele, é preciso ter responsabilidade: planejar o que levar, preparar o equipamento e se desvencilhar do que é inútil para a viagem "Tem que ter menos peso e menos volume, para não sofrer na estrada. Em Santiago de Compostela existe um regra que só se pode carregar 10% do peso do seu corpo", conta.

Assim como Alessandro Borsagli, Walter também curte pedalar na Estrada Real. Já percorreu o caminho em dois meses, enquanto um amigo fez em 18 dias. Muito tempo? Não. Segundo ele, o essencial para desfrutar os lugares visitados. "Demorei em Milho Verde, distrito do Serro, e fiquei uma semana fazendo uma oficina no Festival de Inverno de Ouro Preto. A Estrada Real é o caminho de Santiago sem castelo. É muito lindo! E a hispitalidade mineira é incrível", esclarece.

EUROPA - A Bike Expedition, agência paulistana de viagens de bicicleta, investe na venda de pacotes europeus. E por que não pacotes no Brasil? Segundo o diretor Rodrigo Taddei há uma deficiência estrutural e cultural no país em relação ao cicloturismo. "Na Europa, existe o respeito dos motoristas e o lugar para a bicicleta. É preciso melhorar a estrutura daqui, montar roteiros com finalização, integrar os pontos de apoio. A maioria das pessoas procura fazer fora do país, porque lá tem mais segurança", justifica Taddei.

O diretor conta que entre os meses de maio e outubro os pacotes são mais procurados por causa do verão europeu. Para quem dará as primeiras pedaladas ele indica Provence, na França e Toscana, na Itália. "São regiões propícias para iniciantes. Além de serem lindas cidadezinhas medievais, no roteiro está incluído degustações nas vinículas", detalha.

Alessandro Borsagli, Walter Magalhães, Rodrigo Taddei serão alguns dos palestrantes no evento sobre cicloturismo promovido pelo Instituto Estrada Real.

Manual do cicloturista
- Escolha um grupo de viagem formado por pessoas que você tenha afinidade. A todo momento é preciso tomar decisões em conjunto: quanto pedalar, onde parar, para onde seguir...
- Se não conhecer o roteiro escolhido, procure informações com algum ciclista que já o tenha feito
- Sempre leve mapas atualizados
- Planeje o roteiro e a quilometragem de acordo com seu condicionamento físico
- Utilize uma bicicleta adequada ao seu tamanho e ao caminho a ser percorrido
- Tenha um adômetro, para medir velocidade, distância total e parcial
- Alforges (bolsas fixadas nas rodas traseiras) são essenciais. Quanto mais bolsos melhor!
- Nunca carregue nada nas costas, pode provocar uma queda
- Não esqueça suas caramanholas (garrafas presas ao quadro das bicicletas)
- Use capacete, luvas e bermudas de ciclismo para evitar assaduras nas partes internas das coxas
- Use e abuse de refletivos
- Leve um kit de primeiros socorros e um kit de ferramentas
- Alongue-se antes de começar a pedalar

Mais dicas e sugestões de roteiros em www.clubedecicloturismo.com.br

fonte: Jornal Estado de Minas, 24 de agosto
foto: recorte da publicação
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