Artigo da Serra do Espinhaço no Diário de Itabira
Serra do Espinhaço: sustentabilidade, turismo e mineração

Embora seja uma das mais antigas formações de montanhas na Terra a Serra do Espinhaço ainda é uma jovem criança aos olhos do mundo que a cerca. Ainda em 2003, quando lançamos "Um Disco para a Serra do Espinhaço" pelo projeto Músicas do Espinhaço, era comum, mesmo no meio universitário relacionado, o desconhecimento do assunto.

Para os que ainda não se ambientaram com o tema vale uma breve explicação. Chamamos de Serra do Espinhaço a cadeia de montanhas entre Minas Gerais e a Bahia, com mais de 1.000 km de extensão e largura que varia entre 50 e 100 km. Pertencem a este universo importantes destinos turísticos como a Serra do Cipó, a Chapada Diamantina (Bahia) e a cidade colonial de Diamantina. Por esta extensão e característica o Espinhaço acabou por receber o simpático apelido de cordilheira brasileira.

Quando, em 2006, a Serra do Espinhaço foi tombada pela UNESCO com o título de Reserva da Biosfera, anexaram o quadrilátero ferrífero no contexto da cordilheira, mas é importante saber que existem divergências sobre o pertencimento ou não desta região ao Espinhaço. Naquele momento foi uma boa intenção, marqueteira, de expandir a área tombada, conferindo maior proteção e porte ao Espinhaço sul. Continuamos assumindo a Serra do Espinhaço com seus anexos e falhas (geológicas) porque, na observação do olhar leigo, todos estes são lugares que se assemelham na beleza das imponentes montanhas, campos, matas, cerrados e cachoeiras de águas negras.

Vale sim a intenção de somar o quadrilátero ao Espinhaço mas é uma pena que o tombamento da Reserva da Biosfera não seja capaz de, de fato, proteger as áreas que elege. Não existe nenhuma interferência prática do título como, por exemplo, na preservação permanente das áreas. O título de Reserva da Biosfera é apenas um alerta do valor que tal região abriga.

A Serra do Espinhaço reúne os biomas da caatinga, da mata atlântica e do cerrado com sua espetacular variação, o campo rupestre. É responsável por dividir a água dos rios Doce, São Francisco e Jequitinhonha matando a sede de mais de 50 milhões de pessoas. Possui uma das mais altas taxas de endemismo (espécies exclusivas) do mundo, e grande variação de biodiversidade. O patrimônio histórico e cultural é também notável com outros tombamentos em níveis internacionais.

Quando miramos o futuro dos povos e da região do Espinhaço encontramos num recorte macro duas realidades distintas: o turismo e a mineração. O primeiro, de caráter mais sustentável, encontra grande dificuldade de implementação. Muito em virtude do isolamento de algumas regiões, da incapacidade de gestão da atividade nos municípios e principalmente do perfil do turista mineiro, que não reconhece a profissionalização do setor. O mineiro, de uma maneira geral, não compra pacotes turísticos para visitar lugares perto de casa, não aceita pagar para entrar em cachoeiras e é pouco consciente da própria importância na preservação das atrações. O estado de São Paulo, com menor potencial, explora e tem a atividade turística bem mais organizada e rentável.

Por outro lado, iniciativas como as do fotógrafo Roneijober Andrade no projeto "Abrace o Morro Redondo" e de Marcus Pavani (operadora Andarilho da Luz) com o "Turismo Solidário" são capazes de modificar o panorama da atividade turística em certa localidade. Elas propõem a inserção da comunidade no processo estimulando o turismo consciente, mas ainda são pouco apoiadas por grandes empresas e agentes públicos.

Na mineração a situação, embora economicamente forte, é ainda mais preocupante por ser pouco sustentável. Desde criança me acostumei a temer três figuras: bicho papão, lobo mau e as mineradoras. Já perdi a conta das vezes em que sofri com a concessão de licenciamentos ambientais, com rompimento de barragens de resíduos e com o trânsito pesado de caminhões piorando ainda mais as condições das péssimas estradas mineiras. As mineradoras são o inimigo número 1 dos ambientalistas, dos turistas e dos istas que têm mania de conspiração, "A mineradora X vai explodir o mundo", eles dizem.

Mas, ainda que eu torça o nariz pra essa tal "força do mal", o tempo foi me trazendo certo discernimento sobre o assunto. Quando eu vou ao Espinhaço, vou num carro que precisou de mineração pra existir. O mesmo acontece com o equipamento da barraca que uso, com o celular que pode eventualmente me livrar de algum pepino, com a fábrica de macarrão instantâneo e até mesmo no bisturi do médico que me atendeu depois de um grave acidente.

A mineração está em todos os lugares, é peça fundamental para o desenvolvimento desse mundo super populoso. Infelizmente não podemos mais sonhar com um mundo sem a atividade mineradora. Resta-nos exigir as melhores contrapartidas para os impactos causados e principalmente evitar que áreas de fundamental importância sejam danificadas. Refiro-me a Serra do Gandarela, por exemplo. Sim, eu proponho a aproximação da sociedade com as empresas mineradoras. Temos de encontrar juntos o ponto de equilíbrio para desenvolvimento e sustentabilidade. Na Austrália e em muitos outros países essa é uma relação que se dá de maneira positiva. Precisamos parar a guerra e negociar a paz. Precisamos exigir e direcionar corretamente os royalties gerados.

À parte o conflito turismo x meio ambiente x mineração foi lançado em abril de 2010, através de uma ação de ecoresponsabilidade da agência Imaginosfera – comunicação verde, o projeto Portal Serra do Espinhaço. Principal referência do assunto na internet, o site registrou em pouco mais de 3 meses mais de 300 voluntários e excelentes números de acessos. Investimos também na criação de produtos ecológicos com a marca serradoespinhaco.com.br e conceitos inovadores de sustentabilidade. Ecobags e camisetas feitas a partir da reciclagem de garrafa PET foram alguns deles. Todo o recurso recolhido com a venda de espaços publicitários no site será revertido, no final de 2010, para ações de preservação coordenadas por nossas ONGs parceiras. Instituto Biotrópicos, Brigada 1 e o Instituto Pró-endêmicas são algumas delas.

Nosso esforço certamente trará boas novas à cordilheira do Brasil, mas temos consciência de que somos um pequeno movimento numa intensa necessidade de ações pela sustentabilidade da Serra do Espinhaço. É necessário que todos os interessados dialoguem e construam propósitos práticos, integrados e justos. Abandonar vaidades, impulsos oportunistas e políticas maniqueístas. Não é possível querer ser "o pai de uma criança" que surgiu há mais de 3 milhões de anos. Mas podemos sim, ser filhos, e juntos cuidar desta terra de estonteante beleza e valor incalculável chamada Serra do Espinhaço.

Bernardo Puhler
Coordenador do projeto Portal Serra do Espinhaço
Idealizador, músico, compositor e fotógrafo do projeto Músicas do Espinhaço
Sócio-diretor da agência Imaginosfera – Comunicação Verde


Fonte: Diário de Itabira de 22 de agosto, coluna Expressão de Roneijober Andrade
foto: recorte da publicação

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