Um fio de esperança para as cidades que vivem na Idade Média em Minas
Uma semana não é suficiente para conhecer as cidades de Lassance e Itacambira, no Norte de Minas. Os contrastes saltam aos olhos de quem chega à região. Além de belas paisagens, gente humilde e pequenos armazéns que ainda vendem sob o crédito das antigas cadernetas. Mas os dois municípios, que juntos não somam 12 mil habitantes, têm a miséria e a falta de infraestrutura escancaradas nas ruas e casas.

A maior parte dos moradores vive em comunidades rurais com escassos recursos. As estradas de terra revelam o esquecimento e aumentam ainda mais a distância das grandes cidades. As escolas estão sempre cheias, embora as salas de aula estejam longe do ideal. As fossas nas casas de quem não conhece o saneamento básico e vive a contar gotas d\\\'água mostram o quanto é preciso ser feito por essa gente. Mas, até mesmo nesses lugares, onde para muitos a energia elétrica ainda não chegou, há um fio de esperança.

As cidades têm mais de 30 cachoeiras e paisagens deslumbrantes, distribuídas em 5 mil quilômetros de extensão. Recursos que poderiam ser utilizados para melhorar a qualidade de vida da população. No entanto, nem o poder público nem a população têm ideia de como isso poderia ser feito. Não há guias turísticos, estadias para um número significativo de visitantes ou cursos para capacitar os moradores para receberem turistas. Soma-se a isso, o desinteresse da própria comunidade em divulgar e, até mesmo, conhecer suas belezas naturais.

Um desdém que pode ser legitimado nas dificuldades que começam nas casas muito pobres com quintais que acolhem e misturam fossas improvisadas, hortas, pomares, chiqueiros e a criação de animais. São comunidades que revelam o costume de criar seus filhos enrolando fumo e estudando em escolas precárias, o que emperra perspectivas de um futuro melhor.

Para a maior parte desses moradores, hábitos simples, como assistir televisão, ter um computador, manusear um celular ou simplesmente tomar um banho de chuveiro quente e usar um vaso sanitário são inimagináveis. Por tantos problemas, o Projeto Senar Rondon escolheu estes dois pequenos municípios para lá desembarcar e permanecer por duas semanas.

Debaixo do calor de 30 graus durante o dia e o frio de 10 graus à noite, o grupo formado por 43 pessoas, entre estudantes e professores da Universidade Castelo Branco, do Rio de Janeiro, atravessou fronteiras físicas e emocionais até chegar a esses locais. Em 15 dias, alunos de Medicina Veterinária, Serviço Social, Enfermagem e Pedagogia realizaram várias atividades e levaram serviços à população. Mas, ao mesmo tempo, esbarraram em comunidades arredias, onde muitos moradores chegavam a se esconder debaixo da cama. Um retrato de costumes, paisagens e culturas que revelam uma Minas Gerais bem distante dos cartões-postais e seus roteiros de viagem.


fonte: Jornal Hoje em Dia, 01 de agosto de 2010
foto: Itacambira por Denir Miranda
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