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Plantas medicinais do Caraça em risco de desaparecer
Ambientalistas alertam para ação de mineradoras na região, que ameaça espécimes da flora pouco conhecidos

Clarissa Carvalhaes Repórter

Plantas medicinais da Serra do Caraça, na Região Central, correm o risco de desaparecer. Segundo ambientalistas, ações de mineradoras, cada vez mais próximas da região, ameaçam espécies raras, muitas com capacidade de cura e outras que sequer foram descobertas.

Nos últimos anos, os estudos da flora e da fauna da serra e de seu entorno têm se intensificado, mas, para a professora Maria das Graças Lins Brandão, do Departamento de Produtos Farmacêuticos da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), uma imensidão de plantas da serra permanece desconhecida.


Ela afirma que, ao contrário do que muitos supõem, grande parte das plantas cultivadas em hortas e usadas na preparação de chás são de origem estrangeira. "A camomila, a melissa, o manjericão e o funcho, por exemplo, são originárias da Europa". A professora lamenta que o uso e o próprio conhecimento das espécies brasileiras sejam pouco explorados.

Maria das Graças, que também coordena o Banco de Dados e Amostras de Plantas Aromáticas, Medicinais e Tóxicas (Dataplamt) da UFMG, vem dedicando-se a traduzir a obra "História das Plantas mais Notáveis do Brasil e do Paraguai", de 1825. O texto, do francês Auguste de Saint-Hilaire, descreve a riqueza da flora nesses países sul-americanos, mas destaca a imponência do Caraça. "Talvez muitos anos se passarão antes que se tenha inteiramente esgotada a flora da Serra do Caraça", diz Saint-Hilaire em um dos trechos da obra, que ainda não tem previsão de lançamento.

A região guarda, entre outras espécies, a Cainca. Usada no século XIX para diminuir espasmos nervosos e dores, teve confirmadas pela ciência moderna outras propriedades, como a eliminação de toxinas do organismo e a redução do colesterol.

Segundo a professora Maria das Graças, é preciso correr contra o tempo para evitar a extinção de espécies da flora. "Se o homem continuar depredando a região, em pouco tempo a vegetação do Caraça estará ilhada". O botânico Werley de Assis Martins afirma que aproximação das mineradoras das áreas de preservação ambiental pode levar à destruição de nascentes, do habitat natural de animais e, consequentemente, das plantas. "Muitas serão extintas sem que saibamos sequer que um dia elas existiram", lamenta.

Na tentativa de preservar o lugar, a diretoria do Instituto Estadual de Florestas (IEF) pretende criar o Monumento Natural Serra do Caraça, região que, inclusive, já abriga uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) federal. Até o fim deste ano, o IEF, em parceria com o Ministério Público Estadual, vai encerrar o levantamento de delimitação da área.

As mineradores que atuam de forma expressiva no entorno da Serra do Caraça são a Vale e a Samarco. O gerente geral de licenciamento ambiental da Vale, Julio Nery, diz que o diálogo com as redes de proteção ambiental da serra estão em curso. "Há poucas semanas, nos reunimos para discutir as preocupações com o Caraça e o abaixo-assinado que pede a preservação da região".

De acordo com Nery, a Vale mantém quatro RPPNs no entorno da serra, o equivalente a 6.461 hectares preservados. São as reservas Horto Alegria, Fazenda Capanema, e Capivari 1 e 2.

Já o gerente de desenvolvimento ambiental e licenciamento da Samarco, Rodrigo Dutra Amaral, afirmou que a mineradora realiza o monitoramento constante da fauna e da flora das áreas onde atua. "Mesmo tendo atividades em uma área de formação geológica distinta à formação da Serra do Caraça, reconhecemos a importância de preservar o santuário".

Dutra afirmou ainda que, em parceria com a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), todo recurso de compensação ambiental da Mina de Germano foi destinado à RPPN do Caraça. "Investimos na estrutura da reserva, construindo e equipando um centro de recepção para turistas, além de instalar uma estação de efluentes sanitários que atende a todo o parque", disse.

Visitar a reserva, só com autorização

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça, na Região Central, é uma unidade de conservação de âmbito federal desde de 1994. Apenas atividades de pesquisa científica e de visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais são permitidas na RPPN.

O Caraça também integra a área destinada às reservas da biosfera da Serra do Espinhaço e da Mata Atlântica, reconhecidas há seis anos pela Unesco. O Santuário abrange as cidades de Catas Altas e Santa Bárbara e faz divisa com Ouro Preto e Mariana.

A reserva apresenta três tipologias vegetais: Mata Atlântica de Interior, Cerrado e Campos de Altitude. Atualmente, a flora do santuário conta com mais de 1.500 espécies. Doze delas estão na lista oficial de plantas ameaçadas de extinção em Minas. Entre as 202 espécies de orquídeas, nove estão ameaçadas no Estado.

Na década de 1950, época em que o Colégio Caraça ainda funcionava, grande parte da área da serra teve sua cobertura vegetal cortada para produção de carvão. O produto fora usado para quitar uma dívida do colégio com o Governo Federal.

Após um incêndio em 1968 – e com a chegada do asfalto em 1976 –, a visitação ao Caraça aumentou desordenadamente, incentivando impactos no meio ambiente.

A primeira iniciativa de proteger a região foi a assinatura de um convênio com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (hoje Ibama), em 1982, para transformar o Caraça em um Parque Natural. Em 1998, foi implantado, por meio da Associação Mineira de Defesa do Ambiente, a Coordenação Ambiental e do serviço de Monitoria.

Com intuito de ampliar o controle ambiental da serra e de seu entorno, o Santuário do Caraça vem promovendo, desde dezembro, um abaixo-assinado que pede a transformação da serra em Monumento Natural e a conservação de um corredor ecológico entre o Caraça e o Parque do Itacolomi, também na Região Central. "As unidades de conservação deverão estar conectadas para garantir o fluxo genético entre as espécies", explica a bióloga do santuário, Aline Abreu.

Segundo ela, do total de 11,2 mil hectares da área, 10 mil são protegidos. "O restante, considerado área de manejo, pode ser explorado com autorizações dos órgãos ambientais".

Fonte: Hoje em Dia, 12 de março de 2011.
Imagem: Bernardo Puhler
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